Chuva de Mangas

CHUVA DE MANGAS

Gosto das coisas simples do dia a dia como o cheiro de terra molhada, cheiro de café recém passado e espiga de milhos cozida, banho quente, banho de chuva, a brisa quando bate desavisada e gostosa, cafuné nos cabelos, apertar de bochechas, um abraço imprevisto, um sorriso, um olhar.

Penso que nestas pequenas coisas contém outras tantas tão profundas que são impossíveis de verbalizar.

Noutro dia conversava com um amigo. Não um amigo como outro qualquer, mas um amigo das coisas simples e triviais, amigo de todas as horas e momentos; amigo de risadas insanas e de piadas sem sentido; de abraços roubados; de olhares lidos, relidos e entendidos; de companhia necessária e acostumada. Falávamos das pequenas coisas da vida que colam nas paredes de nossa memória para sempre e ressurge vez por outra trazendo as imagens, os cheiros e sabores daqueles momentos inesquecíveis.

Lembrei-me então de um episódio da minha vida, cujo manto de saudade cobriu-me por completo.

Certa vez, fui a convite de uma prima visitar uma fazenda onde haveria um encontro cultural. A minha participação efetiva aconteceria na área de música, ou seja, cantando, tocando e regendo. Executei minha função com toda propriedade e entusiasmo, pois o lugar era maravilhoso.

Depois de algum tempo, encerradas as atividades usufruiríamos do local, cujo cuidado nos pequenos detalhes transformavam a fazenda num lugar de sonhos e fantasias tirados de um conto de fadas.

Caminhamos pelo gramado aparado e bem cuidado, observamos os animais que viviam soltos e felizes; tomamos água fresca do rio limpo e corrente; tiramos leite de vaca; andamos a cavalo e tudo era perfeito incluindo o clima ameno.

Foi aí que chegamos a um mangueiral. Era imenso e haviam centenas de árvores carregadas de frutas.

É indescritível o perfume que exalava; os pássaros em revoadas alucinantes deliciavam-se com as frutas que caíam das árvores, maduras e pesadas. Em torno de todo o mangueiral havia sombra e uma brisa suave que espalhava o cheiro de manga. Fiquei maravilhada com a visão daquele momento. Lembro-me de não conseguir reagir à tamanha grandeza e sentei-me no chão olhando para o alto e agradecendo a Deus por tão bela criação.

Minha prima, acostumada às coisas do campo sentou-se ao meu lado e olhou para onde meus olhos indicavam e depois de um pouco de silêncio, perguntou-me:

– Não vai comer?

Comer? – Pensei boquiaberta. De fato aquilo tudo além de ser belo aos olhos e bom para o coração podia ser mastigado, engolido, comido e devorado.

Sorri satisfeita da minha doce conclusão e levantei-me apressadamente tomando uma das frutas em minhas mãos.

Enquanto observava a fruta, minha prima que por sua vez absorta observava minha reação espontânea e maravilhada quebrou o silêncio:

– Quer uma faca?
– Não obrigada. – respondi tranquilamente.

Manga não se deve comer com facas. Não debaixo de um mangueiral. Descasquei a fruta e devorei-a. Foi a mais doce e deliciosa manga que já comi em minha vida. Confesso que não foi a única daquele dia.

Sem pressa, sem hora marcada, sem compromissos a serem cumpridos. Sentei-me debaixo de uma árvore e passei a tarde inteira comendo mangas. Comi muitas mangas; comi tantas mangas quantas pude agüentar.

Penso no quanto teria perdido caso agisse diferente. Se meus pensamentos voltassem para as outras possibilidades daquele dia, porém, escolhi comer mangas. E hoje me alegro pela escolha porque não me importei com a opinião dos outros, não me importei com o tempo gasto ao pé de uma árvore, não me importei com nada a não ser satisfazer minha vontade que alheia a tudo era absoluta e inocente.

Momentos assim ficam para sempre. Ainda posso lembrar-me da sensação gostosa que tive naquele dia. Satisfação em realizar o que meu coração desejava, mesmo que fosse algo tão trivial como o comer mangas.
E no fim da tarde, meu rosto, mãos e roupas estavam sujos. Todavia, minha alma satisfeita e lavada.

Glaucia Machado
18/01/2007

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